Quadras 700 – Brasília

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Quando me perguntam onde eu gostaria de morar aqui em Brasília sempre me vem à cabeça as casas geminadas das quadras 700. Eu, que fui cria de apartamento, sempre tive vontade de morar em casa, ter um pouco mais de espaço, jardim, churrasqueira, rede na varanda. Considero ótima a localização dessas quadras, bem central e acessível, perto de tudo, com casas de tamanho ideal para uma família viver bem, sem exageros de proporções exageradas.

Interessante descobrir que essa área residencial não existia no projeto original da cidade. O espaço, hoje ocupado pelas unidades residenciais das 700, estava destinado a hortas, floriculturas e árvores frutíferas, que funcionariam para abastecer as lojas da W3.  A área começou a ter seu uso modificado pela própria Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP que iniciou a construção de unidades habitacionais geminadas para moradia de técnicos e funcionários dedicados à construção da cidade.

O primeiro conjunto habitacional desse tipo construído em Brasília foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e contava com 500 residências geminadas agrupadas em conjuntos de 6 a 8 unidades intercaladas com áreas livres e praças.

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As unidades residenciais das quadras 700 estão dispostas de maneira em que existe uma rua de acesso, por onde passam os carros, onde funciona a entrada “de serviços” ou o fundo do lote, e na fachada oposta ficam as “ frentes” das casas, todas voltadas para um jardim comum. Esses espaços públicos de uso comum gerados nos conjuntos habitacionais das 700 poderiam receber maior atenção uma vez que são áreas de grande qualidade urbana. São trechos pouco usados pela população, muitas vezes considerados perigosos, onde falta calçamento e  iluminação pública adequada.

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Agora imaginem esses espaços com tratamento urbanístico e paisagístico adequado, onde as pessoas possam colocar suas cadeiras no fim da tarde para bater um papo, como nas cidades do interior, onde as crianças possam brincar sem medo dos carros, onde os jardins sejam áreas de estar, onde seja possível passear com tranquilidade. Mudou de opinião?

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As quadras 700 da Asa Sul são ocupadas predominantemente por conjuntos de casas geminadas, ou seja, ligadas umas às outras, que compartilham estrutura, alvenaria e alinhamentos. Na Asa Norte, além das casas geminadas e edifícios sobre pilotis, também encontramos edifícios mistos de residência e comércio. A legislação vigente para a área determina que as edificações geminadas devem ter no máximo dois pavimentos não ultrapassando a altura máxima de 7m e obrigatoriamente deve haver uma abertura para entrada de iluminação e ventilação no interior da edificação. No entanto, ao passear pelas quadras 700 é bastante comum encontrar muitas unidades residenciais de três ou mais pavimentos, que desrespeitam a legislação, descaracterizando completamente o conjunto habitacional em que se encontra, criando verdadeiros “frankensteins” sem a menor coerência em relação ao entorno, principalmente em relação à altura das unidades vizinhas.

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É contra a própria concepção das casas geminadas pensar na edificação como unidade autônoma. Não se pode realizar alterações em uma edificação desse tipo que não tenha interferência direta nas edificações vizinhas e no aspecto geral do conjunto, devendo ser levado em consideração, tanto para quem solicita a alteração quanto para quem idealiza uma intervenção nessa área. Não necessariamente todas as edificações precisam ser iguais, porém é importante que o padrão de altura, afastamentos e aberturas seja respeitado por todos a fim de conseguir um conjunto harmônico e preservar a escala desejada para essa para esse setor da cidade.

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Essa área residencial de Brasília tem um potencial altíssimo a explorar e com um olhar apurado e intervenções adequadas, seria uma área bastante valorizada da cidade, tão interessante quanto uma superquadra em relação à qualidade dos espaços. É necessário também estabelecer normas mais rígidas que contribuam para o estabelecimento da harmonia do conjunto de edificações e maior fiscalização a fim de que as normas sejam cumpridas. De qualquer maneira, acredito que os melhores fiscais das cidades somos nós mesmos, os próprios moradores, que devemos estar mais preocupados com o nosso entorno comum e nossa vizinhança.

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