Público X Privado

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No caminho para o trabalho hoje pela manhã presenciei uma cena que me deixou pensativa. Aquela situação habitual, você dirigindo, para no sinal vermelho. Vem o mendigo passando pedindo dinheiro. Eis que o motorista do carro da frente abre a janela e atende ao pedido do morador de rua. Até aí tudo bem, uma alma caridosa, pensei. Menos de um minuto depois a mesma alma caridosa abre novamente a janela e atira uma garrafinha de Coca-Cola vazia. Ali no gramado. Sem a menor cerimônia.

Eu fiquei pensando: Mais que incoerência! O cara quer ter bom coração, pratica a caridade dando esmola no sinal, mas não cuida da própria cidade! Sinceramente não sei se essa falta de coerência entre o que a gente fala e o que a gente faz é um problema apenas no nosso país, mas acontece demais por aqui.

Outro conceito que anda um pouco deturpado na cabeça das pessoas de maneira geral, é o que significa público e privado. Por essas atitudes como a que presenciei hoje, e não foi a primeira vez, fica claro que muitas pessoas pensam assim: o que é meu é privado. Tudo que não pertence a mim e nem a outra pessoa é público. Cuido e dou valor ao que é meu. O que é público não é de ninguém, não é problema meu.

OK. O que é privado está claro. Um espaço ou um bem privado é o que alguém trabalhou e pagou para construir ou adquirir e tem um dono. É de posse de alguém.

O que é comum ou coletivo é compartilhado entre duas ou mais pessoas, por toda uma comunidade. Não tem um dono, tem vários. Pertence a todos.

O espaço comum é de todos! Oras! Se pertence a todos e é utilizado por todos, é seu também! Não faz sentido depredar estações de metrô, pontos de ônibus, placas de sinalização, telefones públicos, atirar lixo na rua, vandalizar fachadas, só porque não “é seu”.

Será que o motorista do carro da frente costuma jogar lixo no chão de casa? Duvido!

E ainda que fizesse isso, o que você faz, no seu espaço privado, tem influência apenas sobre você e as pessoas mais próximas, que compartilham a sua casa ou visitam de vez em quando. Já um dano ao espaço público tem influência sobre várias pessoas, milhares de “donos”, que passam por ali diariamente e não poderão usufruir de algo que beneficia a todos porque um cidadão resolveu fazer o que bem entendia no momento.

A gente vive aí falando de sustentabilidade, de salvar a natureza, de aquecimento global, preservação da Amazônia, tirar animais da extinção, mas tudo isso está em uma esfera bem maior, com as quais, muitas vezes não temos contato direto. Não é preciso ir tão longe para “fazer um bem para a humanidade”. Na realidade, as pequenas atitudes no dia-a-dia já são suficientes para transformar o espaço e a vida das pessoas no entorno imediato.

Separar o lixo seco do orgânico, descartar pilhas e baterias em local apropriado, ir para o trabalho de carona com quem mora perto e trabalha ou estuda no mesmo lugar, utilizar mobiliário público como se estivesse em casa. Com o próprio ato de dar descarga e fechar a torneira em banheiros públicos, você já está melhorando a vida de quem utilizará esse espaço depois de você.

A mentalidade precisa mudar. É necessário que as pessoas adquiram o sentido de posse também pelo que é público. Assim, aos poucos, a comunidade passa a zelar  pelo que está além do limite dos seus muros, como os jardins, equipamentos de exercício, mesas e bancos, calçadas, pontos de ônibus. Recuperando esse sentimento, há ainda mais engajamento da comunidade no sentido de cobrar das outras pessoas e do próprio governo a manutenção daquele bem, de denunciar ocupações irregulares, de exigir que as coisas funcionem como deveriam. Pense nisso.

 

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