Por que se preocupar com urbanismo?

Rascunho de Lúcio Costa para superquadra

Se você nunca parou para pensar na importância do planejamento urbano, saiba que a vida de todo cidadão é diretamente influenciada pelo urbanismo todos os dias. O tempo que você demora para chegar ao trabalho, a distância que você percorre entre a parada de ônibus e sua escola, a disponibilidade de uma quadra de esporte perto de sua casa, enfim, a forma como usamos a cidade e interagimos com ela está diretamente relacionada com condições urbanísticas que a princípio foram definidas com objetivos específicos.

As cidades, na verdade, são como “organismos vivos” que evoluem de forma quase autônoma e, por isso, as intervenções urbanísticas são necessárias para orientar o sentido dessa evolução de modo que siga premissas pré-definidas.

O urbanismo moderno é uma disciplina que teve sua raíz na época da revolução industrial a partir de uma necessidade de criar regras para garantir melhor qualidade da vida nas cidades através por meio de uma ocupação planejada dos espaços urbanos. Nos primórdios dessa disciplina, as soluções urbanísticas eram muito pautadas por concepções estéticas e ideológicas. De lá pra cá, o urbanismo tem evoluído de modo que está cada vez mais focado em soluções práticas para o desenvolvimento da qualidade de vida abarcando objetivos a longo prazo.

Brasília, por ser uma cidade modelo desenvolvida no período dos ideais modernistas, nos permite desfrutar de diversas características que resistem à pressão de um mercado imobiliário extremamente especulativo.

Uma cidade, obviamente, abriga grandes quantidades de pessoas vivendo em sociedade e, por esse motivo, qualquer decisão urbanística deve, em tese, ser tomada focando totalmente o interesse coletivo.

Na prática, sabemos que isso está longe de ser realidade e, infelizmente, essas decisões são tomadas com objetivos mercadológicos no interesse de poucas pessoas que possuem grande poder de influência dentro das instituições com poder deliberativo sobre as questões do desenvolvimento urbano das cidades.

Muitas dessas liberdades para distorcer o interesse público em interesse próprio são conquistadas, em grande parte, devido à falta de preocupação da população com as questões urbanísticas do lugar onde vive. Porém, a noção de que essas decisões atingem todos, sem exceção, deveria estar incutida na mente de todo cidadão assim como a ideia da importância do voto consciente.

Um exemplo prático dessa questão é a recente polêmica sobre a desocupação da orla do Lago Paranoá exigida pelo MPDFT tendo em vista que as áreas foram invadidas e apropriadas pelos moradores da região impedindo o acesso ao lago pelo restante dos habitantes do DF. Provavelmente, uma pressão popular rapidamente restituiria o uso da orla para todos se a população entendesse a questão como um direito que encontra-se indisponível devido a poderes financeiros e políticos de uma minoria.

Orla do Lago Paranoá

Nesse sentido, fica claro que urbanismo é sim um assunto que está presente em nosso dia a dia e é válido ter uma mínima noção do assunto para que se possa intervir sempre que houver prejuízo aos interesses coletivos, mesmo que não seja do seu interesse individual.

Infelizmente, o urbanismo lida com questões que podem ter desdobramentos extremamente complexos podendo dificultar o entendimento de seus impactos a médio e longo prazo. Numa estrutura tão grande como a de uma cidade, existem tantas inter-relações de sistemas que prever o resultado da difusão de uma intervenção urbanística pode se tornar algo bastante técnico. A criação de um novo loteamento, por exemplo, pode parecer um benefício livre de qualquer suspeita, mas esse aumento demográfico pode gerar impactos nos serviços públicos no entorno, podendo degradar tanto os conjuntos habitacionais existentes quanto os novos a longo prazo. Mas ainda assim é possível lidar com isso sendo recomendável fazer uma busca por textos de especialistas da área para compreender determinadas questões e formar sua opinião individual.

Além disso, é válido lembrar que existem responsabilidades individuais mesmo dentro de um lote ou apartamento. O regulamento de uma administração regional, para aprovar uma construção, define diversas regras que foram determinadas previamente com objetivos específicos. A taxa mínima de solo permeável dentro do lote, por exemplo, tem o objetivo de contribuir na redução de águas pluviais que serão captadas pelas bocas de lobo da rua evitando uma possível enchente; a altura máxima de uma casa evita que outra fique excessivamente sombreada, enfim, atender a regras desse tipo, mesmo que seja um condomínio irregular ou um apartamento, contribui para um convívio harmônico e gera valorização e qualidade de vida para a cidade de modo global.

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