Passagens Fantasma

Passarela subterrânea

Nas palavras do Mestre Lúcio Costa, a concepção do Plano Piloto de Brasília nasceu do gesto de quem assinala uma cruz. O cruzamento de dois eixos, que viriam a ser as principais vias de circulação de veículos por toda a extensão da cidade.

O desenho da cidade divide o espaço urbano em quatro quadrantes. Em relação à mobilidade do pedestre não há na realidade grandes dificuldades de deslocamento no âmbito do quadrante. A cidade é bastante arborizada nas superquadras, o terreno é plano e os edifícios sob pilotis não oferecem empecilho físico ao trajeto.

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O problema que enfrentamos diariamente é passar de um quadrante para outro. A distância entre a Asa Sul e a Asa Norte passando pelo Eixo Monumental é realmente bastante grande para percorrer a pé por isso as pessoas preferem fazer uso de algum meio de transporte quando precisam se locomover nesse sentido. Por outro lado, frequentemente há a necessidade de atravessar o eixo rodoviário em que a distância é curta e cujo trajeto seria tranquilo de percorrer caminhando, se o “Eixão” não estivesse no meio do caminho.

O nosso Eixo Rodoviário, conhecido pelos moradores da cidade como “Eixão” tem tanta relevância no traçado da cidade quanto sugere o nome. É uma grande via que conecta toda a cidade no sentido norte-sul com velocidade permitida de 80km/h e seis faixas, sendo três para cada sentido mais uma faixa de separação entre as vias no meio. O Eixão se torna um imenso obstáculo aos pedestres que desejam sair da sua casa na quadra 213 e ir visitar a avó que mora na 113 cujo edifício é possível ver “do outro lado da rua”.

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Para resolver esse problema Lúcio Costa propôs as passagens subterrâneas, que conectam a cidade no sentido Leste-oeste passando por baixo da via, tanto na Asa Sul quanto da Asa Norte que serviriam para resolver essa circulação, encaminhando pedestres com segurança e sem precisar atravessar todos aqueles carros em alta velocidade.

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A maioria das pessoas, no entanto, prefere se aventurar a atravessar o Eixão no meio dos carros a fazer uso das passarelas, que são espaços insalubres, mal iluminados e propícios à ocorrência de assaltos e outros crimes. São frequentes as manchetes de jornais denunciando o abandono e a falta de segurança das passagens subterrâneas, bem como noticiando mais um acidente envolvendo carros e pedestres no Eixão.

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Frequentemente são feitas revitalizações nas passagens como reparos nos revestimentos e instalação de novas luminárias, porém em pouco tempo as paredes estão novamente pichadas e as luminárias quebradas.

A questão gera muita polêmica e já escutei as mais variadas soluções para a travessia, como a instalação de semáforos, criação de canteiro central arborizado dividindo o Eixão em dois, construção de passarela elevada, colocação de guard rail e barreiras de concreto entre outros. A maioria dessas soluções no entanto, ferem o projeto original da cidade e não resolveriam efetivamente o problema.

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Uma alternativa para resolver o problema seria lançar um olhar diferente sobre o que já existe. As passagens já estão lá, em locais pré-determinados e podem funcionar muito bem, só que não basta apenas trocar revestimento e instalar luminárias mais resistentes. É preciso modificar o uso desse espaço, transformar as passarelas em ambientes, não só de circulação, mas também de convívio, agregar atividades de pequenos comércios e serviços, ampliar os espaços, abrir mais acessos para entrada de iluminação natural, eliminar o caráter de corredor escuro e insalubre. Há muito espaço para aproveitar!

As passarelas são, inclusive, equipamentos bastante propícios a receberem intervenções de arte urbana e instalações. A passarela poderia, por exemplo, receber um tratamento diferente, contribuindo para a geração de espaços com identidade urbana marcante, trazendo maior circulação de pessoas e até abrindo novos locais para a realização de eventos efêmeros como feiras, aulas ao ar livre, festas, etc. Passar por ali deveria ser como atravessar uma praça, e talvez até sentar para conversar com os amigos, ou ler um livro. Sem medo. As passagens subterrâneas de Brasília têm potencial para isso!

Frequentemente a população se reúne para ocupar espaços ocioso da cidade de maneira divertida e criativa. É o caso do evento Forró de Vitrola, que acontece periodicamente na passarela da 111/211 Norte onde os forrozeiros realizam seu evento, que é  gratuito e aberto a todos que gostam de dançar.

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No ano de 2012 foi realizado um concurso de projetos para a elaboração de propostas para a revitalização de algumas dessas passagens de Brasília. Os projetos vencedores apresentaram soluções bastante interessantes e tive esperanças de que efetivamente alguma coisa seria feita para melhorar a situação, porém nada saiu do papel. De qualquer maneira foi uma ação excelente para propor soluções ao problema. Precisamos de mais iniciativas assim!

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As passagens subterrâneas sob o Eixão são tão brasilienses quanto os cobogós, os pilotis, eu e você! Vale a pena dar valor ao que é originalmente nosso, trazendo à tona as potencialidades dos nossos espaços urbanos tão diferentes e únicos. Isso é melhorar a cidade sem ir de encontro às ideias do nosso ilustre criador. Lúcio Costa ficaria feliz.

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