O que é arquitetura vernacular?

Maxakali

O termo “arquitetura vernacular” é confundido por muita gente com classificações de significados similares porém distintos. Para alguns, pode simplesmente significar arquitetura antiga, do passado, arquitetura popular e mais recentemente tem surgido uma associação com arquitetura sustentável. Bem, arquitetura vernacular até tem um pouco de tudo isso, mas é algo vai bem mais além.

Apesar da arquitetura vernacular sempre ter existido, ela só passou a ser analisada e estudada a partir do fim do século XIX. No Brasil, um grande apoiador desta arquitetura foi Lúcio Costa.

Anasazi

Musgum2 Acima: Cliff Palace da povo Anasazi no Novo México – EUA. Abaixo: Conjunto de casas vernaculares do povo Musgum nos Camarões.

O termo “vernáculo” é mais utilizado relacionado à linguagem, definindo o idioma que é próprio de uma região sem influência de estrangeirismos, ou seja, a língua nativa de uma localidade. Derivado do latim, vernaculu denomina o escravo que nascia na casa do patrão, ou seja, pertencente àquele lugar. Portanto, arquitetura vernacular, representa a arquitetura construída com técnicas e materiais originários de uma região específica, um conhecimento geralmente passado de geração a geração.

Obviamente, uma arquitetura vernacular pode ser chamada de sustentável porque geralmente utiliza técnicas bioclimáticas passivas e materiais com baixa energia incorporada, no entanto, conforme explicado, nem toda arquitetura sustentável pode ser considerada vernacular.

No Brasil, esse tipo de arquitetura é mais facilmente reconhecida nas aldeias de povos indígenas pois é onde estão fortemente presentes todos os princípios que a caracterizam. Em primeiro lugar, esse tipo de arquitetura deriva originalmente do objetivo de atender as necessidades das pessoas e do grupo, e não em alcançar um objetivo estético. É uma arquitetura mínima, onde não há excessos, racionalizada para o tamanho da mão de obra disponível. Ao mesmo tempo está fortemente ligada ao local de implantação e aos costumes do grupo, integrada ao meio e adaptada ao microclima. Os conhecimentos construtivos são transmitidos como uma tradição e por serem métodos práticos e não estéticos são mais facilmente repassados adiante.

Xingu

Oca indígena na região do Xingu

Parque_Indígena_do_Xingu

Parque Indígena do Xingu

Entre os estudiosos do assunto existe uma certa divergência se as construções tradicionais com influências européias podem ser consideradas vernáculos brasileiros. Para alguns, a arquitetura vernacular brasileira se restringe somente à arquitetura indígena. Isso porque essa outra é derivada de métodos estrangeiros. No entanto, desde a colonização, esses métodos foram adaptados e miscigenados com conhecimentos locais, tornando-se doméstica do Brasil. Essa construção mestiça também foi perpetuada no saber comum independente de uma obrigação externa, motivo pelo qual é caracterizada por alguns pesquisadores como vernacular, ou mais especificamente paravernacular.

Casa_do_Bandeirante_03

Casa do Bandeirante no Butantã

Naturalmente que surgiram tipologias ligeiramente diferenciadas, mais regionalizadas por assim dizer, devido à grande extensão do território brasileiro. Dessa forma, obtivemos um grande portifólio de técnicas que são empregadas até hoje nos lugares mais afastados dos grandes centros, principalmente em áreas rurais. Técnicas como taipa de pilão, pau-à-pique, tijolos de adobe, telhados de palha e muitos outros são encontrados disseminados por todo o país.

Taipa

Parede de taipa

Essas construções regionais são caracterizadas pela sua simplicidade e por isso costumam ser vistas como “casas de pobre”, no entanto são o verdadeiro retrato da identidade arquitetônica brasileira, da qual qualquer projeto arquitetônico poderia se apropriar de seus artifícios para solucionar problemas bioclimáticos e construtivos, tendo em vista que hoje a construção no Brasil incorporou muitas técnicas e materiais bastante industrializados, além de tipologias de lugares frios onde as preocupações são diferentes das nossas.

Adobe

Quilombola fabricando tijolos de adobe.

Considerando que a preocupação com sustentabilidade se torna cada vez mais premente, é importante retornar nossa atenção à essa sabedoria regional onde a construção nunca deixou de ser sustentável. Achar que essas técnicas podem prejudicar a estética da arquitetura é grande engano. O arquiteto Severiano Porto é um exemplo de como essa apropriação tornou sua arquitetura distinta, bela e adequada para o local onde está inserida e, por esse motivo, as suas obras na Amazônia estão em processo de tombamento pelo Governo da Amazônia por serem construções “nativas” da Amazônia.

Severiano Porto

Centro de Proteção Ambiental de Balbina – Arquiteto Severiano Porto

O livro “Manual do Arquiteto Descalço” é uma ótima fonte de soluções construtivas alternativas onde muitas delas são detalhamentos de técnicas das arquiteturas vernaculares brasileiras. É uma leitura obrigatória para quem tem interesse em incorporar essas técnicas em sua casa ou para quem está pesquisando sobre sustentabilidade. É interessante perceber que os antigos já faziam algo que a sociedade contemporânea atualmente tem se esforçado para descobrir: como viver de forma sustentável.

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