Jardins Comunitários

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O brasiliense parece ter vocação para aproveitar seus espaços urbanos. Aos domingos, diferentes gerações de moradores usam as largas faixas do Eixão para testar seus patins novos ou para comer em algum Food Truck, em seus frequentes eventos gastronômicos. O que seria do nosso domingo sem o Eixão do Lazer? Mas acredite, o brasiliense ainda tem muitos outros espaços a explorar na cidade. Brasília oferece muitos locais prontos para serem ocupados por nós.

Um tema atual e crescente nas grandes capitais mundiais é a utilização dos espaços públicos da cidade. Nas densas cidades modernas, onde cada família convive em ambientes cada vez menores, cada espaço vazio e ocioso é um grande desperdício de potencial.

Em Berlim, por exemplo, multiplicam-se jardins comunitários e espaços públicos de convivência. Assim como nós, os alemães celebram o clima quente tomando cerveja e grelhando uma carninha com os amigos. Mas os caras já entenderam que o jardim perto de casa é, na verdade, um prolongamento do apartamento deles. Eles não precisam espremer seus amigos na sua sacada apertada; basta tomar posse, finalmente, das áreas públicas destinadas para este fim.

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A preocupação com um estilo de vida mais saudável também nutre este desenvolvimento da cidade. Entre as vantagens destes jardins comunitários, podemos destacar o aumento da qualidade de vida de seus usuários, além da participação e socialização em eventos neste espaço. Para os amantes de jardinagem esta melhora é óbvia. Mas os jardins comunitários são altamente flexíveis: se tornam hortas, áreas de piquenique, solários ou podem até gerar lucro para o grupo de moradores locais, como é o exemplo do jardim Prinzessinnengarten, em Berlim.

O jardim surgiu em 2009, como uma iniciativa de moradores que queriam melhorar uma área próxima, um lote vazio e sem uso. Agora, o espaço abrange uma horta, local para eventos e workshops sobre jardinagem e sustentabilidade e até um quiosque, onde são vendidos lanches e sucos naturais feitos com ingredientes colhidos ali. O lote vazio virou um ponto turístico e o lucro das vendas de produtos e serviços é revertido em verba para a manutenção do projeto.

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Os espaços ociosos são, em parte, consequência da própria movimentação da cidade. Elas são como organismos vivos que aumentam, se movem e se modificam. Então o uso de certas áreas fica “desatualizado”, às vezes. Mesmo Brasília, uma cidade tombada pela UNESCO, que não pode perder a essência de seu planejamento inicial, tem ruas com aglomerados gastronômicos ou outros cantos com caráter mais esportivo ou utilitário, e essas identidades locais podem se modificar com o tempo.

Um outro exemplo bem sucedido de reutilização de espaços urbanos em Berlim é o Aeroporto Tempelhof. O aeroporto, muito próximo ao centro, foi desativado em 2008 e sua área foi transformada em um parque. Suas pistas de pouso e decolagem possibilitam a prática de diversos esportes, inclusive voos de parapente, além de abrigar eventos musicais, churrascos em família e outras tantas atividades.

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Trazendo estes exemplos ao cotidiano da nossa cidade, vemos áreas com excelente potencial, como as superquadras e os bosques nas quadras 700 do plano piloto. Será que usufruímos verdadeiramente dos imensos jardins em frente às nossas casas? Deveríamos fazer uso das áreas que são destinadas à nós. A sensação de lugar “deserto” ou perigoso desapareceria com um aglomerado de pessoas em um dia ensolarado, eu garanto. Quando ocupamos estas áreas no nosso dia a dia, nos tornamos responsáveis por ela de uma forma natural, nada egoísta. Queremos cuidar instintivamente dos lugares que gostamos e frequentamos. Não só a segurança é melhorada com uso constante e, portanto, vigilância constante. A cidade também é beneficiada com esta iniciativa: quanto maior a popularidade do espaço, maior é o foco para melhorias e novos projetos culturais nele. Os primeiros passos já foram dados: a criação das PECS – Pontos de Encontro Comunitários formou uma espécie de comunidade entre seus frequentadores. Lá eles se encontram, conversam e tornam o local muito mais agradável, com esta nova possibilidade de uso.

Conforme descobrimos novas utilidades para um espaço que já conhecíamos, ele se torna importante para nós. Se torna parte da nossa vivência, parte de casa. A cidade é ocupada de forma mais íntima e a nova cultura brasiliense se torna mais rica e definitiva.

Gi_curriculumGiselle Gurgel é arquiteta e urbanista formada pela Universidade de Brasília e mestre em arquitetura de paisagem pela Escola de Economia e Meio Ambiente de Nürtingen-Geislingen, Alemanha. Ela possui o blog Frau Gurgel , onde escreve com humor sobre as diferenças entre brasileiros e alemães, além de narrar as suas últimas viagens.

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