Comerciais Frente X Verso

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Para um morador de superquadra da Asa Sul em Brasília, é comum sair do seu apartamento e ir caminhando comprar alguma coisa no comércio da entrequadra ou, para os mais íntimos, “ali na comercial”. No trajeto de quem vem da superquadra, é necessário passar pelos fundos dos edifícios comerciais, cujas fachadas são, na maioria das vezes, negligenciadas e renegadas ao status de serviço, sem o menor cuidado, apresentado aspecto de total abandono.

A Comercial é assim: enquanto a frente das lojas virada para a rua é bastante movimentada, para quem vem pelos fundos é sempre prudente tomar cuidado e caminhar e com bastante atenção, porque, em função de não haver muita gente por perto, o ambiente é de insegurança e insalubridade, principalmente durante a noite.

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Qual não foi minha surpresa quando descobri, anos mais tarde, que a ideia original de Lúcio Costa era que acontecesse exatamente o oposto. Segundo a descrição das quadras comerciais no próprio memorial descritivo da cidade apresentado para o concurso que selecionou o projeto para a nova Capital , essas lojas teriam “vitrinas e passeio coberto na face fronteira às cintas arborizadas de enquadramento dos quarteirões e privativas dos pedestres, e o estacionamento na face oposta, contígua as vias de acesso motorizado, prevendo-se travessas para ligação de uma parte a outra, ficando assim as lojas geminadas duas a duas, embora seu conjunto constitua um corpo só” . Ou seja, as lojas de comercial deveriam ser viradas para a superquadra e a fachada dos fundos seria a da rua, funcionando como área de descarga e estacionamento.

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Com o crescimento da cidade, essa intenção original sofreu uma inversão transformando as fachadas da rua nas entradas principais, em função do maior movimento e visibilidade nessas vias. Na Asa Norte, cujos edifícios das entrequadras comerciais foram construídos posteriormente, tomou-se o cuidado de exigir tipologias de edificio com lojas e salas voltadas para as quatro fachadas, o que garante um espaço urbano de maior qualidade mais atrativo e seguro, sendo também de mais rentável economicamente.

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Além da inversão entre frente e fundo estabelecida nos edifícios comerciais da Asa Sul, muitas outras alterações foram sendo realizadas pelos lojistas ao longo dos anos. Um acréscimo de cobertura aqui, uma mudança de altura ali, vamos crescer a loja um pouco para o fundo, que é área de serviço mesmo, ninguém vai ligar, e por aí vai. Em 19/12/2008 foi publicada a lei complementar nº 766, a conhecida “Lei dos Puxadinhos”, em uma tentativa de regulamentar e padronizar essa ocupação irregular da área pública nas quadras comerciais do Plano Piloto.

A Lei 766 estabelece parâmetros para o acréscimo das lojas na área posterior das edificações, altura máxima, ocupação de circulações, locais permitidos para colocação de mesas, toldos, etc., mas não inclui a prerrogativa de ocupar a fachada posterior abrindo as lojas para a superquadra, o que, na minha opinião, foi um lamentável esquecimento. Considero muito importante a regulamentação e controle das ocupações desordenadas em qualquer parte sempre pensando no bem comum e da cidade, e nesse caso perdemos a oportunidade de utilizar a Lei como instrumento importante de efetiva melhoria desse espaço urbano.

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Alguns estabelecimentos comerciais na Asa Sul estão abrindo sua fachada dos fundos para a quadra convidando o pedestre a acessar o edifício também por esse caminho. É o caso do Ernesto Café e na 115 Sul, do restaurante Naturetto na 403 Sul, do Empório Marzouk na 106 Sul e muitos outros. No entanto, esse espaço mais dos fundos, pelo menos por enquanto, está sendo explorado em sua amioria por restaurantes e cafés, mas, porque não ser ampliado para estabelecimentos como lojas de artigos de casa, roupas, padarias, escritórios como fez a Urban Arts vizinha ao Ernesto Café? Além de resgatar as origens do plano inicial de Lucio Costa, geraria mais movimento de pessoas, melhoraria a segurança do local e provavelmente traria mais clientes ao estabelecimento, gerando espaços de permanência e convívio que podem ser bastante interessantes e inovadores.

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Convido então donos de lojas, lojistas e colegas arquitetos a propor uma mudança nesse sentido por contra própria. Pretende modificar sua loja? Faça um projeto dentro das normas estabelecidas, considerando a abertura para as duas fachadas. Torne as duas fachadas acessos importantes ao seu negócio, cuide da fachada dos fundos tanto quanto a da rua. Acredito que a iniciativa poderá trazer mais e mais seguidores, iniciando um movimento de qualificação desse espaço e contribuindo para a melhoria da cidade. Brasília Agradece.

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