Árvores são equipamentos públicos?

Gameleira na 704/705 norte

Gameleira na 704/705 norte

Muitos brasilienses já devem ter acompanhado a saga das gameleiras da Asa Norte. As coitadas escaparam de caírem “na faca” por diversas vezes. Em 2013, após a manifestação dos moradores, a Novacap reconsiderou a derrubada de um exemplar na 704/705 norte.

Com um pouco de esforço foi possível avaliar o impacto das raízes às redes de esgoto e ao trânsito no local. Foi realizado apenas uma poda para evitar a queda de galhos e as raízes passaram a ser monitoradas quanto a danos às galerias subterrâneas. E assim essa árvore maravilhosa, com cerca de 30 anos de vida, continuará a mostrar toda sua beleza e a imponência da natureza ante o avanço dos espaços edificados das metrópoles.

Num caso semelhante na Ceilândia, onde a população questionou a necessidade de uma poda que só manteve as raízes, a Novacap informou que a ação foi feita para melhorar o campo visual de câmeras de segurança e acrescentou à justificativa que realiza o plantio de 5000 árvores por ano no DF.

Essa última declaração mostra como a visão sobre o valor de uma árvore é superficial. Do ponto de vista urbanístico, de pouco adianta cortar um árvore no meio de uma superquadra e plantar 5000 numa área rural, porque não se pode usufruir de vários de seus benefícios estando a quilômetros de distância. Plantar outra árvore próxima ao local original também não compensa totalmente o prejuízo, pois, até que a mesma chegue à idade adulta, se passarão diversos anos caso consiga sobreviver aos primeiros anos de vida. Uma árvore adulta carrega diversos valores que são difíceis de mensurar.

Alguns podem dizer que árvores em espaços urbanos são um grande problema em função do risco de queda e danificação da pavimentação. Sim, essa preocupação é válida e importante para preservar a integridade das pessoas e dos patrimônios públicos e privados. Mas deve-se ter o cuidado de não estender esse argumento para justificar muitas ações do governo e da população para a derrubada indiscriminada de árvores, o que vemos com frequência em Brasília. É preciso saber analisar caso a caso as necessidades de intervenções, uma vez que o benefício da vegetação em meios urbanos é essencial e inegável.

Rua Gonçalo de Carvalho em Porto Alegre

Rua Gonçalo de Carvalho em Porto Alegre

Em Porto Alegre, “A rua mais bonita do mundo” ganhou esse apelido de um professor português e acredito que, ao observar a foto, fica óbvio o motivo desse nome. Essa rua foi decretada como Patrimônio Histórico, Cultural, Ecológico e Ambiental do município em junho de 2006. Porém, o local só não foi drasticamente alterado para instalação de um estacionamento graças à luta dos moradores para preservar a rua.

A mobilização da população em favor da preservação da natureza em áreas urbanas deve-se a um reconhecimento de percepção incomum. Talvez, porque seja difícil para a maioria das pessoas enxergar uma árvore como um equipamento público e funcional. Porém, é quase impossível pensar em espaços urbanos sem a presença da árvore.

Em primeiro lugar, as árvores geram sombreamento proporcionando proteção solar, sendo muito útil para calçadas e estacionamentos. Além disso, elas funcionam como absorvedores acústicos minimizando os ruídos das ruas que atingem os edifícios e residências ao mesmo tempo que atraem a presença dos pássaros e seus cantos. Elas também permitem uma melhora no clima ao absorver grande parte da carga térmica solar e dos gases do efeito estufa ao realizar fotossíntese.

Além desses benefícios mais óbvios, existem outros que são igualmente importantes, porém mais difíceis de serem percebidos. Já existem diversos estudos científicos que apontam para a mesma ideia de que a presença de árvores nas cidades traz várias melhorias para o bem estar mental dos habitantes. Pesquisas de universidades da Escócia indicam que o cérebro humano pode se recuperar de estafa mental ao percorrer um caminho repleto de árvores e estímulos naturais. Outro estudo americano chega a sugerir que cada árvore urbana salva cerca de uma vida ao ano.

Mas como podemos preservar ou aumentar a presença de árvores em nossas cidades?

Em primeiro lugar, podemos realizar podas mais eficientes em que se leva em consideração o tipo de solo, a localização e a espécie da árvore. É importante verificar as espécies que têm raízes superficiais ou que estão em locais arenosos ou em ribanceiras. Nesses casos, deve-se imaginar um círculo em volta do caule da árvore com raio igual à sua altura. Se não houver vagas de carro, fiações elétricas ou edificações dentro desse raio praticamente não há risco de prejuízos. Árvores mais propensas a sofrer derrubadas pelo vento podem compor bosques densos sem problemas.

Se você possui em terreno e pretende iniciar uma obra, faça um levantamento de locação das árvores dentro do lote incluindo informações como espécie, altura, raio da copa e riscos de desabamento de cada uma e após esse levantamento realizar a implantação da edificação levando em consideração esses dados. Como já foi dito, uma árvore adulta é insubstituível sendo possível mantê-las enquanto a construção se desenvolve. Dessa forma, ao fim da obra, já se poderá usufruir dos benefícios de árvores de grande porte. Em diversas construções podemos observar um procedimento comum e injustificável de se derrubar todas as árvores dentro do lote e plantar novas mudas ao final da construção.

Se não houver ou não for possível manter as árvores já existentes é interessante plantar novas mudas assim que se começa a construção tendo o cuidado de protegê-las bem. Muitas construções demoram mais de um ano ou dois para serem finalizadas e, no momento da inauguração, as árvores plantadas já estarão com uma altura considerável.

Para realizar um uso mais inteligente de vegetações naturais é extremamente recomendável a contratação de um paisagista para fazer uma consultoria ou auxiliar na elaboração de um projeto com objetivos específicos em mente. A imensa diversidade de espécies permite utilizá-las ativamente para atender necessidades variadas. O profissional especializado pode indicar as melhores opções para sombrear estacionamentos por exemplo. Espécies que perdem suas folhas no inverno podem permitir a entrada de sol na edificação nesse período e podem proteger contra incidência solar no verão. A composição visual de paisagens também é um ponto importante que pode fazer a diferença em nossas ruas e praças.

Sem dúvida, a vegetação pode causar transtornos, mas é importante aprendermos a enxergar que os ganhos que temos é muito maior que o incômodo de ter que varrer suas folhas.

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