A Luz e Sombra como Artifício de Realce

Sempre fui fascinada pelo contraste ocasionado entre luz e sombra. Desde os primórdios, o homem possui uma forte afinidade com os efeitos provocados entre luz e sombra, na relação entre a luz do dia e o desempenho suas atividades cotidianas e na escuridão da noite, momento de recolhimento. Nas religiões, a luz conota uma analogia com o divino enquanto que a sombra possui relação com as trevas. A psicologia Junguiana também explora a relação do homem com seu lado “sombra”. A  teoria da Gestalt do Objeto utiliza a relação de “contraste” como uma ferramenta amplamente utilizada para obter expressividade, atrair a atenção, distinguir volumes e produzir dramaticidade e é amplamente utilizada nas artes como fotografia,  pintura, dança, cinema, artes cênicas e plásticas. No campo da arquitetura, este recurso já era amplamente utilizado nos templos religiosos de gregos e romanos. Também foi brilhantemente explorado pelos grandes mestres Le Corbusier, Tadao Ando, Barragan e Álvaro Siza.

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Direita superior: Victor Assis- https://www.flickr.com/photos/victorassis/page2 Direita Inferior: The Contemporary Art of Azerbaijan Esquerda: Caravaggio

É interessante refletir como os espaços podem ser realçados e intensificados na arquitetura lançando mão de recursos simples como luz e sombra. Assim como nas artes, a utilização deste conceito na arquitetura é capaz de despertar emoções, realçar perspectivas, profundidades e texturas.

Na esquerda superior: Igreja da Luz de Tadao Ando europaregina.eu; Na direita superior: La Tourett de le Corbusier; Na direita ao meio: Capella de Ronchamp de Le Corbusier; Na esquerda inferior: Panteão Romano; Ao meio: Faculdade de Ciências e Educação de Álvaro Siza No canto direito inferior: Casa Gilardi de Luis Barragan

Dentro desta abordagem, vale à pena citar a Igreja da Luz de Tadao Ando. Nesta igreja, ele utiliza a luz natural para revelar a cruz no fundo do templo, de maneira genial. A simplicidade como ele revela o divino é facilmente apreendida pelo observador, despertando grande emoção.

Le Corbusier também revela belamente a relação com o espiritual através de sua Capela de Ronchamp. Ao invés de simplesmente usufruir dos vitrais de maneira usual, ele lança mão da espessa parede para direcionar a luz que atravessa os vitrais como verdadeiras luminárias que projetam luz natural e colorida para dentro da edificação, intensificando a relação de claro e escuro e contribuindo para dar dramaticidade e emoção.

O Panteão Romano também utiliza a luz natural e projeta a luz para dentro do edifício de maneira intencional, como se uma luz divina viesse dos céus adentrasse o espaço realçando as texturas das paredes e chegando ao chão.

Na Casa Gilardi, Luis Barragan usufrui de rasgos nas paredes onde a luz natural atravessa e intensifica as cores quentes das paredes internas, criando um alegre jogo de luz e sombra.

Álvaro Siza utiliza-se de um átrio a fim de revelar os contornos de seus pavimentos, criando contrastes de luz e sombra nas brancas paredes da sua Faculdade de Ciências e Educação.

Dentro da arquitetura, devemos pensar  não apenas nos espaços funcionais e nas formas. É interessante refletir sobre quais artifícios utilizar a fim de realçar as formas e contornos, os cheios e os vazios. Ao projetar, o arquiteto deve imaginar as sensações que gostaria de provocar. Dentro das principais perspectivas e fachadas, ele pode e deve lançar mão do efeito da luz e sombra a fim de realçar sua arquitetura, como o toque final da cereja em cima do bolo.

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